
Como já foi divulgado neste
Descentralizador, a calçada da alameda Barão de Limeira foi tomada por um grupo autodenominado Movimento dos Sem-Mídia (MSM) durante a tarde do último sábado (07). O ato marcou a criação do movimento, cujo manifesto foi lido em público pela primeira vez.
O criador e líder da iniciativa chama-se Eduardo Guimarães, um assíduo freqüentador dos espaços abertos aos leitores dos grandes jornais e blogueiro de forte repercussão na internet.
O MSM pretende lutar "pelo direito humano à informação correta, fiel, honesta e plural". E combater "a seletividade do moralismo político midiático, o sufocamento da divergência e o soterramento ideológico de corações e mentes", diz o manifesto.
Em entrevista ao Terra Magazine, Guimarães conta que é representante comercial para o setor de exportação de uma indústria de autopeças do interior do Estado. Ele se identifica com o "o homem na multidão, indivíduo comum", de Edgar Alan Poe. "Nunca tinha sido entrevistado na vida até cinco dias atrás", garante.
Vale a pena dar uma lida no
blog do ativista.
Na foto de Ricardo Veronez, Eduardo Guimarães solta o verbo.
Há quanto tempo você se manifesta sobre a mídia?Leio jornais diariamente desde adolescente, seguindo um costume de família. Em meados dos anos 90 comecei a enviar cartas para os jornais, sobretudo para o Estadão. Minhas opiniões foram muitas vezes publicadas por este jornal, também pela Folha, O Globo e Jornal do Brasil.
No entanto, a partir da campanha eleitoral de 2001 passei a enfrentar dificuldade para ser ouvido pelos mesmos espaços. Minhas correspondências que colidiam com a opinião expressa pela maioria dos editoriais e articulistas destes jornais rarearam, enquanto que as demais foram mantidas.
Quer dizer, ficou claro para mim que para eu ser publicado, precisaria alinhar minha opinião à expressa pelos veículos. A partir desta percepção que cunhei o termo "sem-mídia".
A internet possibilita outros vôos, outros espaços. Há muitos anos o Observatório da Imprensa publica textos meus. Atualmente, a freqüência é quase semanal.
Em fevereiro de 2006 coloquei o meu próprio blog, o cidadania.com, no ar. Blogs de jornalistas de grande prestígio começaram a disponibilizar links para o meu.
Principalmente o do correspondente da TV Globo em Nova York, Luiz Carlos Azenha, o Conversa Afiada, do Paulo Henrique Amorim, e o do Luiz Nassif. A mídia alternativa também passou a dar espaço para mim, e a coisa foi crescendo.
Como surgiu o MSM?A idéia do movimento surgiu há pouco mais de duas semanas, no dia 30 de agosto. O estopim foram os episódios envolvendo o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski. Sobretudo a matéria da Folha em que a repórter reproduz uma conversa dele ao telefone celular com uma terceira pessoa, num restaurante de Brasília.
Senti-me ameaçado porque no momento em que a imprensa começa a agir deste jeito, perseguindo e espionando, ficamos inseguros. Se a imprensa vai dizer o que o Supremo vai julgar e decidir, todos nós estamos ameaçados.
A mídia quer decidir como juízes e parlamentares devem votar, usando contra eles a ameaça de desmoralização.
Devido à minha profissão viajo há anos para os nossos países vizinhos. Eu estava na Venezuela em 2002, e vi de perto a tentativa de golpe de Estado do qual a mídia tomou parte decisiva. Num processo como este as garantias desaparecem. A sociedade fica sem parâmetros quando perde o bom senso.
Como foi organizada a manifestação?Neste dia postei um texto que falava de tudo isso, e sensibilizei muita gente. Em poucos tempo organizamos o ato em frente à Folha. Marcamos um horário de encontro, fiz contato com internautas de vários Estados dispostos a participar e compramos um megafone.
Fechamos questão em torno de uma conduta que não causasse danos ao patrimônio público, sem agressividade ou insultos. Não padronizamos roupas, bordões, narizes de palhaço e nada que caracteriza uma ação orquestrada. Este é um movimento espontâneo. Dizemos o que pensamos.
O ato foi comunicado em ofício à subprefeitura regional da Sé, à 1ª Delegacia Seccional de Polícia da Capital, ao 13º Batalhão da PM da Capital e ao Detran. Foi uma manifestação bem educada e civilizada, que transcorreu sem grandes problemas.
Como você avalia o resultado da manifestação e a cobertura que ela recebeu da mídia?
Eu estava pronto para fazer a ato sozinho, se fosse necessário. Mas para a minha surpresa, reunimos mais de 200 pessoas na manifestação. Recolhemos 191 assinaturas para o manifesto, que foi protocolado na recepção do jornal. Mas não conseguimos falar com todos presentes.
A Polícia Militar afirmou que apenas 90 pessoas fizeram parte da manifestação, o que para nós é um grande equívoco. O contingente alcançado foi uma grande surpresa e vitória para o movimento.
Quanto à mídia, o Conversa Afiada, veículos alternativos como a Caros Amigos e Portal da Imprensa, e a própria Folha cobriram a manifestação.
Da grande imprensa mesmo, conseguimos nove linhas na Folha, numa matéria que deu destaque para a manifestação do movimento "Cansei", que na Avenida Paulista também reuniu cerca de 200 pessoas.
E um comentário na crítica diária do ombudsman da Folha, publicada pela Folha Online. Na opinião dele, o jornal não informou bem o seu leitor quanto ao conteúdo da nossa manifestação, apesar de ela ter ocorrido em frente à Folha.
A pouca cobertura da grande mídia só confirma e legitima o Movimento dos Sem-Mídia. Mesmo assim, estamos ganhando visibilidade. Desde a manifestação, meu blog tem recebido mais de 1,5 mil visitantes únicos por dia, o que é muito para um desconhecido como eu.
O MSM tem caráter político-partidário?Não. O Movimento é formado por pessoas das mais distintas origens e opiniões. Nos unimos exclusivamente pela percepção de termos nosso direito à livre expressão desrespeitado pela imposição de unanimidades contidas na imensa maioria do espaço de opinião da grande mídia.
Eu nunca fui filiado ou tive ligação com qualquer organização político-partidária. A única vez que cheguei perto de um político foi em 2000, quando a Folha de São Paulo me convidou para participar das comemorações dos seus 80 anos. Como eu escrevia muito para jornal, era tido como um exemplo de leitor participativo. Fiquei orgulhoso com a deferência, na ocasião.
Desde 1989 eu voto em Luiz Inácio Lula da Silva. Mas há vários leitores do meu blog que divergem de mim e participam da nossa mobilização. Não somos contra ninguém, mas sim a favor do jornalismo sério.
Gostaria de saber mais sobre você.Eu tenho 47 anos, sou casado, tenho quatro filhos e uma neta. Comecei a fazer administração de empresas, mas logo abandonei o curso. Minha mulher engravidou cedo e tive que priorizar o trabalho. Comecei como estoquista numa empresa de exportação e saí dela como gerente de compras, com 21 anos.
Tive minha própria empresa por muitos anos, mas levei um tombo na crise argentina de 2001. O corralito prendeu o dinheiro e quebrou muitos dos meus clientes e eu também fiquei no prejuízo. Desde então, voltei a trabalhar para outras empresas como gerente de exportação e representante de vendas.
Minha origem é de classe média. Estudei em boas escolas particulares de São Paulo, como São Luiz, São Bento e Dante Alighieri. No mais, sou autodidata. Li os clássicos da literatura e muitos jornais, sempre.
Quais são os próximos passos do movimento?Pretendemos realizar em breve uma assembléia em São Paulo. Estamos estudando como dar uma feição jurídica ao movimento. Porque eu quero fazer tudo dentro da lei, tudo certo, comedido, sem insultos. Com argumentos, sem "fora mídia", "fora ninguém". Quero argumentar e receber argumentos, democraticamente. Promover o debate de idéias.
No curto prazo devemos fazer novas manifestações. Acredito que em frente à Editora Abril, ou ao Estadão. Queremos dar corpo ao Movimento até que estejamos fortes para chegar à Globo, que é o maior latifúndio midiático do Brasil. Pretendemos fazer uma ocupação intelectual e pacífica do espaço midiático brasileiro.